Resumo
Os cogumelos Psilocybe spp. contêm os alcaloides psilocibina e psilocina e seu consumo remonta aos povos originários da América Central e do México que os utilizavam ritualisticamente. Dados sugerem que milhares de pessoas utilizam esses cogumelos no Brasil, indicando um campo de pesquisa promissor quanto a seu potencial terapêutico, de autoconhecimento e por implicações no campo da saúde mental. A literatura sugere que as vivências psíquicas evocadas por esses fungos podem dialogar diretamente com os fundamentos da psicanálise incluindo o acesso ao inconsciente, insights transformadores, regressões, estados hiperassociativos, rearranjos psicodinâmicos e experiências com potencial de integração psicossomática. Além disso, evidências de ensaios clínicos com a psilocibina têm demonstrado resultados significativos, embora preliminares, em uma série de tipos de sofrimento da atualidade, como depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, ansiedade, cefaleia, angústia decorrente de câncer terminal, e dependência de tabaco. Essas problemáticas clínicas podem ser entendidas pelo prisma do sentido da vida e da personalidade quando compreendidas a partir da teoria psicanalítica, especialmente a do psicanalista e pediatra inglês Donald Winnicott, que considerava o sentido da vida como uma posição existencial-criativa do si-mesmo (Self), derivando aspectos da personalidade. Objetivo. Este estudo tem como objetivo explorar as vivências psíquicas decorrentes do uso adulto de fungos psicoativos do gênero Psilocybe e suas influências no sentido da vida e na personalidade, utilizando a análise temática e a psicanálise. Método. Foi realizado um estudo de natureza exploratória e qualitativa que utilizou entrevistas semiestruturadas junto ao oferecimento de espaço de acolhimento e elaboração de inspiração psicanalítica, baseada nas consultas terapêuticas de Winnicott, aqui denominadas “entrevistas terapêuticas”. Foram entrevistados 11 participantes, sendo eles cinco homens, quatro mulheres e duas pessoas não-binárias, entre 21 e 51 anos de idade, de diferentes regiões do Brasil, profissão, etnias e classe social. Foram propostas três entrevistas. Houve participação completa na primeira e na segunda entrevistas, com apenas dois participantes desistindo da terceira. Foram utilizados dois métodos qualitativos para analisar as entrevistas, ambos utilizando a Psicanálise como referencial teórico. Para a investigação das experiências dos entrevistados com os cogumelos psicodélicos procedeu-se a uma Análise Temática. Para a exploração de temáticas terapêuticas por meio das entrevistas terapêuticas utilizou-se o método de relatos de caso. Resultados. Os resultados apontaram, quanto às experiências dos participantes, para a importância do uso do cogumelo em relação a mudanças no sentido da vida e da personalidade dos entrevistados. Os temas e subtemas emergentes na análise temática das experiências foram os seguintes: Contemplação (Mirações e percepções; Sensações corporais), Uso Adulto (Cuidar de si; Experiências desafiadoras), Sentido da Vida (Viver o presente; Espaço potencial; Chamado), Mudanças na Personalidade (Amorosidade; Artes; Integração), Acontecer Humano (Interconectividade; Finitude e infinitude; Inorgânico; Espiritualidade) e Uso Terapêutico. No processo das entrevistas terapêuticas surgiram conteúdos relacionados à transformação pessoal, ao autoconhecimento, a aspectos ontológicos, e ao manejo da experiência psicodélica e do set e setting. Conclusão. Conclui-se que uso adulto do cogumelo psicodélico pôde, na maior parte da amostra deste estudo, desencadear uma reestruturação no sentido da vida e na personalidade. O conceito de uso adulto autônomo como proposta de exploração do uso dos cogumelos Psilocybe merece maiores estudos, embora os riscos associados mereçam cautela. A entrevista terapêutica necessita de maiores investigações e aprimoramentos. Há contribuições mútuas na pesquisa interdisciplinar com ciência psicodélica e psicanálise. O psicodélico pode convocar o psicanalista a rever suas posições teórico-clínicas e a psicanálise pode auxiliar o campo dos psicodélicos com a sua visão elaborada sobre o ser humano.
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