Compartilhar:
O último 8 de março, Dia Internacional da Mulher, foi comemorado com abertura de mostra artística no Espaço das Artes da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. A exposição “Cores Nyotas”, da fotógrafa Pola Fernandez, reúne 18 retratos em grande formato de mulheres negras, envoltas com o tecido chita. A mostra segue aberta ao público até 30 de março no Espaço, onde também está sendo projetado curta-metragem sobre o processo de criação e produção do trabalho.
As modelos pertencem ao Grupo de Mulheres Negras Saltenses NYOTA, que reúne mais de 60 membros e existe há 12 anos. A exposição convida a refletir sobre a construção da identidade e formação de suas memórias ancestrais, a partir de seus retratos fotográficos e da utilização do tecido chita como recurso estético e narrativo, sugerindo uma imagem onde as mulheres são retratadas imersas no “tecido cultural” que envolve suas memórias e ancestralidades. O projeto foi contemplado com edital ProAC (Programa de Ação Cultural) para itinerância no interior do estado, onde passará por outras quatro cidades.
Pola lembra que está em parceria com o Grupo NYOTA há mais de 10 anos, em projetos com diferentes linguagens. Ela ressalta a importância da data. “É um privilégio abrir justamente hoje, pois é uma exposição de mulheres. Eu tenho muito prazer em apresentá-la novamente ao público. É a união da paixão pela fotografia e pela arte com a história de vida de mulheres que carregam uma sábia ancestralidade brasileira. Temos o parâmetro da mulher que veio de longe, atravessou continentes, chegou aqui e foi de alguma maneira se transformando. Também a chita veio da Índia, atravessou a África, foi se transformando na chita brasileira, tecido popular e de trama larga”, diz Pola. Continua a artista: “Venho do Chile, então de alguma forma ainda carrego o olhar de fora. Me fascina coisas que não existem na nossa terra, como a chita. E essas mulheres negras não existem no Chile”. Ela também agradeceu à equipe que ajudou na montagem e ao diretor da Faculdade, Claudio Coy, que esteve presente no evento.
Fátima Herculano, representante do grupo NYOTA, recorda que o projeto começou quando sua idealizadora, Maria Almeida, conseguiu reunir as mulheres negras em Salto (SP). Em seguida, veio a parceria com Pola. “Nosso grupo começou com desfiles e palestras, trabalhando com as questões raciais. É muito difícil a gente ter a comunicação da questão racial, uma vez que não participamos da construção da sociedade brasileira. Agora, temos voz e lugar de fala. Quando a Pola fez essa proposta, aceitamos o desafio, que também é um presente. Estamos muito felizes porque, com esse projeto, conseguimos ganhar visibilidade, não só na nossa região, mas até internacionalmente, no Chile. ‘Cores Nyotas’ nos remete a uma memória ancestral. Enquanto mulheres negras, queremos que os nossos tenham oportunidades, para que não sofram tanto quanto nossas antepassadas sofreram. ‘Nyota’, em algumas partes da África, pode significar ‘estrela’ ou ‘guerreira’. E nós somos estrelas guerreiras”.
A abertura da exposição teve oficina de turbantes ministrada pelo Grupo NYOTAS. Também foi disponibilizada estrutura de fundo infinito confeccionado em chita, permitindo ao público que realizasse selfies, recriando as fotografias da exposição. O evento contou, ainda, com apresentação musical de choros clássicos e contemporâneos do grupo Café com Pão, composto por Patrícia Gatti (cravo), Iza Taube (voz), Paulo Dalgalarrondo (flauta) e Dalga Larrondo (percussão).